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sábado, 22 de maio de 2010

FALANDO DE TRANSPLANTE - Parte 5

Parte 5

O TELEFONE TOCOU.CHEGOU A HORA !!!


      Apesar de ansiarmos muito pelo chamado, o toque do telefone do hospital é apavorante! É um misto de felicidade e medo indescritível, só quem passou por esse momento é capaz de entender.
       De repente, tudo se torna real e, ao mesmo tempo, inseguro. É o tudo ou nada: você tanto pode resgatar sua vida como não.
       O mais angustiante dessa hora é o que dizer aos filhos. Será que eles sabem o suficiente de como os amamos? Será que  ficarão bem se não voltarmos mais? Quem saberá ouvi-los em suas aflições do cotidiano? E o pai? Será que terão paciência para escutá-lo e compreende-lo?
        Tudo isso se passou em frações de segundos quando recebemos o telefonema, no dia 6 de março de 2009, por volta das 21 horas. Foi o meu marido quem atendeu e percebi que era a Sol, enfermeira-chefe da CIHDOTT.
Sol !!!!
         Com toda sua delicadeza, Sol disse que havia chegado minha hora, que deveríamos fazer a internação até a meia noite daquele dia, mas tínhamos que estar também preparados para voltar. A retirada do órgão doador só iria acontecer por volta das 3 horas da madrugada e só então seria feita o exame  final de compatibilidade. Mas, enquanto isso, eu deveria ser preparada no hospital. Se tudo desse certo, o transplante aconteceria no início da manhã. Não era necessário levar nada, só os objetos de higiene pessoal.
      Ao desligar o telefone, nos abraçamos e choramos muito. Tinha chegado minha vez!  Possivelmente, a espera tinha acabado! 
     Passado o primeiro impacto -   e acalmada a dor de barriga  de ambos -  fomos dar a notícia às “crianças”: mais choradeira e dor no coração!
      Era necessário dar a noticia pelo telefone e despedir deles com otimismo, segurança, na esperança de que não ficassem assustados. Mas meu coração estava apertado. Para cada um em particular eu queria deixar um conselho, falar alguma coisa que os ajudassem em suas vidas, alguma coisa que só mãe consegue sentir em relação à cria. Não sei se consegui, por que chorei muito com todos eles.
       Ainda restava o meu marido. Quem iria estar com ele durante as horas de cirurgia? Como ele iria suportar sozinho, a espera e a angústia do resultado de uma cirurgia tão complexa?
       E a gente esquece que os filhos crescem e são capazes de decisões sobre nossas vidas!. Logo em seguida, meu filho Gustavo telefonou, anunciando que já estava providenciando sua vinda para Blumenau, de avião e que chegaria provavelmente durante a manhã seguinte, decisão tomada pelo três  filhos, para não deixar o pai sozinho. Como fiquei orgulhosa e agradecida, por filhos tão maravilhosos!
       Fizemos a internação às 23 horas, e tudo aconteceu com tinha sido dito. Mais exames, radiografias, lavagem, higiene pessoal com produtos específico para evitar infecção, etc.
       No Santa Isabel, existe um quarto específico de preparação para quem vai entrar para o transplante, onde tentamos relaxar um pouco durante as horas de  espera. Se nada fosse dito até o inicio da manhã, era sinal que o transplante seria feito. É lógico que mal conseguimos cochilar um pouco.
      É importante ressaltar que todo procedimento que envolve transplante no país é necessariamente feito pelo SUS (Sistema Único de Saúde), em qualquer Estado da União. No momento em que você escolhe o centro hospitalar e se cadastra em uma fila de espera, tudo é feito e gerenciado pelo SUS.
       No caso de Blumenau, foi feita uma ala só para transplantados de fígado e rins, que foi denominada de Clinica Nossa Senhora Aparecida, orgulho do Santa Isabel e com atendimento  de primeiro mundo, aos transplantados.


FINALMENTE, BARRIGA VERDE!


      Quase todas as pessoas me perguntam se conheço a família do doador. Apesar de parecer uma pergunta natural, ainda é uma pergunta que me incomoda, pois retrata uma idéia criada pela mídia de que isso é o procedimento normal, quando na verdade não é.
       Essa decisão da família doadora é feita em um momento de muita fragilidade, com seu ente querido ainda ali presente. Acredito que deva ocorrer um ato de amor extremo por aquela pessoa, de tal modo que ela possa contribuir para que outros vivam.
      A doação em Blumenau é feita com toda dignidade possível, de modo sigiloso, respeitando-se tanto o doador como o receptor. Não há por que tornar público esse ato doloroso para os dois lados.
      Todos os dias rezo pela família doadora, agradecendo a Deus, a oportunidade de ter recebido um pedaço de uma pessoa que, com certeza, foi muito amada.
       Fui para o centro cirúrgico as 08:30 horas do dia 7 de março de 2009. Nunca tremi tanto em minha vida. Me lembro apenas do anestesista se apresentando, e nada mais. Dormi paulista para acordar catarinense, ou barriga-verde, como são chamados.
       Meu marido conta que foram quase 9 horas de cirurgia. Durante esse tempo, meu filho Gustavo chegou, conseguindo, enfim, segurar a barra, junto do pai.
       Lembro vagamente de suas visitas ao começar a acordar, na UTI, e depois o rostinho da Nuana dizendo que tinha sido tudo um sucesso.
       Graças a Deus, tudo foi um sucesso mesmo. Fiquei praticamente 24 horas na UTI, quando o tempo médio é de três dias. Ainda meio grogue pela anestesia , lembro de como fiquei surpresa ao ver os olhos (verdes  ou azuis?) do Dr. Mauro Igreja, meu cirurgião e de pensar  como era jovem, ainda.
        No quarto, que mais parecia uma suíte, fiquei 12 dias, sendo tratada com muita dedicação, carinho, por todos, desde a higienizadora, até residentes, médicos e o incansável grupo da CIHDOTT, criando uma camaradagem e amizade para o resto da vida.
        Quando estava para ter alta do hospital, minha filha Daniela veio de São Paulo com meu genro preferido, Lume, e a gracinha de minha vida, Nuno.
         Fui recebida no apartamento em grande festa, com uma sopinha de legumes feita por ela. Senti-me uma rainha.

Dia 19 de Maio de 2010
         Ficamos ainda em Blumenau por mais três meses, dando oportunidade para que o Marcelo, meu caçula, minha nora querida Fernanda, tão amiga e companheira do Gustavo,  pudessem ver como estávamos bem, e eu cada dia melhor , agora sem os olhos amarelos e a cor da pele voltando ao normal, depois de tantos anos de cor indefinida.
          Hoje estou com oito meses transplantada, com uma vida normal, comendo normalmente. Lógico, de uma maneira saudável, sem exageros em temperos e começando a estabelecer uma nova rotina de vida.
      Volto a cada três meses a Blumenau para controle dos imunossupressores que tomarei por toda a vida, mas feliz e com vontade de escrever uma nova historia para nossas vidas.
       Para todos aqueles que de alguma forma contribuíram para o resgate de minha vida, só posso dizer; QUE DEUS OS        ABENÇOE!
            Olga Marcondes, 57 anos, mas com oito meses de vida.
             Presidente Prudente ( SP ) Novembro de 2009




     Olga Marcondes
Repres. Grupo Hércules
em Blumenau/SC
Ex-Professora de História e Geografia
Transplantada Hepática há 1 ano e meio

sexta-feira, 7 de maio de 2010

BUROCRATAS DECIDEM SOBRE O DIREITO DE VIVER

Quanto vale uma vida?


Um homem e uma mulher em situação limite em relação à vida. Para continuarem vivendo necessitam de realizar transplante de fígado. Estão na fila aqui no Paraná como tantos outros paranaenses estão e estiveram. Os dias correm e nada...nem noticias, nem esperanças. A doença avança e a vida começa a ficar comprometida. Agrava-se o quadro:não dá mais para esperar. Conseguem lugar na fila de Santa Catarina(Blumenau) com a certeza de que em brevíssimos dias estarão transplantados e, vivos!

Estes dois seres não têm posses, dinheiro, mas têm o direito garantido por lei, de receberem o TFD(Tratamento Fora do Domicílio) que a Prefeitura deve fornecer. Pronto, resolvido. É só ir até à Prefeitura e formalizar a situação e, no mesmo dia seguir para Blumenau e receber a vida de volta, uma Graça concedida por Deus e executada por um corpo clínico de altíssimo nível.

Aí vem as surpresas. Os burocratas, que são servidores públicos e pagos por nós,começam a colocar dificuldades, as mais diversas. Dentre elas, por exemplo é que estas duas pessoas moram em Londrina-Paraná e o transplante é em Blumenau-Santa Catarina. A desculpa apresentada é de que uma cidade fica no Paraná e a outra em Santa Catarina, portanto em estados diferentes, apesar de estarem dentro do mesmo País e a lei estabelecer que é assegurado ao cidadão recursos para sua manutenção fora do seu domicilio.



O SUS é Nacional

Ora, Londrina é o domicilio destas pessoas! E como em Londrina, em Curitiba e em todo o Paraná a Central de Transplantes não funciona no caso dos transplantes de fígado, não restou aos dois outra alternativa que não correr atrás de um local onde pudessem receber fígado novo e continuarem, por Vontade de Deus, a viverem. Mas os servidores públicos, aliás funcionários públicos absolutamente descompromissados com o cumprimento das suas funções, negam insistentemente o TFD o que impossibilta a estes dois seres irem a Blumenau. O que fazer diante de tanta insensibilidade? de tanta incompetência? de tanto mau caratismo?

As eleições estão próximas e no nosso Estado e no Brasil as coisas continuam como sempre estiveram. Um bando, muitas vezes quadrilhas organizadas se dedicam a dilapidar o patrimônio público, mas não se dignam legislar, executar, julgar Políticas de Estado e não de Governo voltadas para a saúde, educação etc...

Comigo aconteceu a mesma coisa...

Comigo aconteceu a mesma coisa...Fiz o transplante há dois anos e meio atrás. Estava terminal em Curitiba onde permaneci por mais ou menos três anos na fila. Uma semana depois de me transferir para a fila de Santa Catarina fui transplantado em Blumenau. Me desculpem os leitores mas o qualificativo mais suave que encontro para estes burocratas incompetentes e insensíveis é o de sem vergonhas.
 
Tenho esperanças que através de movimentação da sociedade civil organizada com poucos discursos e muitas ações possamos colocar um fim nesta situação através da nossa poderosa arma que é o voto. Trocar estes bandidos por pessoas sérias e comprometidas com suas propostas e em estabelecer um Estado realmente forte e limpo, politicamente equilibrado onde situação e oposição passem a debater com honestidade e patriotismo os temas que interessam realmente a vida e acabar com estas guerras de quadrilhas organizadas. Encerrando peço aos leitores que orem fervorosamente para que estes dois seres humanos possam ter suas vidas salvas pelos meios que Deus, com certeza, disponiblizará para que ambos se salvem.

Martin Roeder
Conselheiro do Grupo Hércules
Engenheiro Civil
Professor da UFPAR
Extensa carreira de Eng. nos
Setores Público, Privado e Terceiro Setor